julho 03, 2004

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas,
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão.”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

Sophia de Mello Breyner Andresen (Livro Sexto)

Publicado por vmar em 12:30 AM | Comentários (9) | TrackBack

julho 02, 2004

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba –
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andresen (O Nome das Coisas)

Publicado por vmar em 11:56 PM | Comentários (5) | TrackBack

Sofia, para sempre…

Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Dia do Mar)

Publicado por vmar em 09:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 29, 2004

Verdadeiro sábio

- Não te vás embora, respondeu o rei que tinha orgulho em possuir um súbdito. Não te vás embora, faço-te ministro!
- Ministro de quê?
- Da... da justiça!
- Mas não há ninguém para julgar!
- Não se sabe, disse-lhe o rei. Ainda não dei uma volta pelo reino. Estou muito velho, não tenho lugar para uma carruagem e canso-me a caminhar.
- Oh! Mas eu já vi, disse o princípe, inclinando-se para lançar nova vista de olhos pelo outro lado do planeta. Lá adiante não há ninguém...
- Farás, então, o teu próprio julgamento, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar-se a si próprio do que julgar outrem. Se conseguires julgar-te, provas que és um verdadeiro sábio.

O Principezinho (Antoine de Saint-Exupéry)

Publicado por vmar em 05:04 PM | Comentários (8) | TrackBack

junho 14, 2004

Tabacaria

...
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

...
...
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!

....
...
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!

....
trechos de : Tabacaria – Álvaro de Campos
abra o link a seguir para ler o poema completo

Tabacaria
(poema completo)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Publicado por vmar em 05:56 PM | Comentários (7) | TrackBack

Poema


Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.

Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Alberto Caeiro, 1-10-1917

Publicado por vmar em 04:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

Ode

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933

Publicado por vmar em 04:25 PM | Comentários (2) | TrackBack

junho 13, 2004

Mar Português

Pintura de Almada Negreiros


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
in Mensagem

Publicado por vmar em 12:42 PM | Comentários (2) | TrackBack

junho 07, 2004

Poema

Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
não significas nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Obs: Agora leia de baixo para cima.

Publicado por vmar em 10:29 AM | Comentários (2) | TrackBack

maio 25, 2004

Matilde Rosa Araújo premiada

Atribuído (por unanimidade) pela direcção da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), a escritora Matilde Rosa Araújo recebeu ontem o Prémio Carreira.

Mais de meio século de vida dedicado à escrita, e também ao ensino, com dezenas de livros editados, uma acção pedagógica, internacionalmente reconhecida, em defesa dos direitos da criança, Matilde Rosa Araújo, já anteriormente galardoada com outros prémios relevantes, é um nome maior da literatura portuguesa para crianças.
De entre os seus vários livros de histórias, contos e poesia, os mais conhecidos são O Livro da Tila, O Palhaço Verde, O Sol e o Menino dos Pés Frios e Baladas das Vinte Meninas.

AS MUITAS FOMES DAS CRIANÇAS

Extraídos de uma entrevista publicada em 2000 no D.N., em que Matilde Rosa Araújo fala da escrita para o universo infanto-juvenil, de dar afectos, alertando também para a falta deles, são os parágrafos que se seguem:

A criança é o seu universo?
Não comecei por aí. Tive uma fase da chamada escrita para adultos, embora a criança já estivesse presente. Quando fui dar aulas, o meu encontro com as crianças revelou-se a grande descoberta. Aprendi a ver a criança como pessoa que é.

Um ser complexo ...
Muito. E a sociedade nem sempre sabe estar com a criança. Permito-me salientar o caso das que mais sofrem. Das crianças com fome de tudo. Fome de afectos, fome de pão, sede de água, sede de compreensão. E falo das crianças feitas agentes de guerra, a quem metem uma arma nas mãos para matar.

A sua literatura, no conto como na poesia, fala e dirige-se a todas as crianças, mas fixa-se especialmente nos «meninos da rua». Uma forma de intervenção?
De alertar para cruentas realidades. Mas há também crianças aparentemente com bem-estar e mais acompanhadas que sofrem de falta de afectos.»
....
«Na sua poesia para o público infanto-juvenil concilia a palavra sentimental e o humor. Uma forma de estar na vida?
Chego a rir-me sozinha. Aprecio a literatura de humor que vai ao encontro do sol da vida.
Ao mesmo tempo que as palavras jogam o jogo do mundo infantil, ergue-se a voz adulta...
Essa voz não aparece por eu querer estar lá. É involuntária. Sinto a criança comigo. É um ser convivente. E uma voz adulta natural.

Será a voz que melhor conta a dor da criança medida?
Uma voz de esperança no futuro, apesar de tudo. Esperança de que os direitos da criança sejam respeitados. Se não houver capacidade para respeitar os direitos da criança, não serão respeitados os direitos do Homem.

Crianças agredidas existem independentemente do meio sociocultural em que se integram?
A falta de calor humano encontra-se a todos os níveis.»

Publicado por vmar em 12:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 19, 2004

Prémio Camões 2004

A escritora Agustina Bessa-Luís foi distinguida, por unanimidade, com o Prémio Camões 2004, no valor de 100 mil Euros.
O Prémio Camões é o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, e deriva de acordo cultural entre Portugal e o Brasil instituído em 1988.
Parabéns Agustina.

Publicado por vmar em 01:54 PM | Comentários (4) | TrackBack

maio 12, 2004

"Vermelho"

"Vermelho" é o romance de Mafalda Ivo Cruz que ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela 2003 da Associação Portuguesa de Escritores (APE).
O Grande Prémio de Romance e Novela da APE, tem o valor pecuniário de 15 mil Euros e desde que foi instituído em 1982, já distinguiu obras de 19 autores diferentes.
Parabéns, Mafalda.

Publicado por vmar em 04:48 PM | Comentários (2) | TrackBack

maio 07, 2004

Lagartos, objectos perdidos… ficções encontradas

Aqui há dias, o Luís Ene lançou o desafio: Escreva uma pequena pequena história, em cinco minutos, utilizando uma das seguintes sugestões:

— sobre um objecto que esteja perdido
— sobre um lagarto
— sobre uma mentira
— sobre uma tosse
— sobre uma promessa quebrada

Publico aqui duas das diversas “fast fiction” que lhe chegaram à caixa de comentários, pois estas são da Ana.

**************

Ela limpava o fogão com desengordurante amoníacal....
Então viu um lagarto à janela. Dá-me um beijo, disse ele, para me quebrares o feitiço, que eu sou um principe. Em troca concedo-te um desejo.
Vencendo a repugnância, beijou a boca do réptil, fria e viscosa. E logo o lagarto se transformou num belo e atlético principe. E ela, fartinha de limpar a porcaria da casa sempre suja, não foi em cantigas românticas nem sensuais. Em troca mandou-o limpar toda a casa de uma ponta à outra, de alto a baixo.
... Respirou fundo, aliviada, e recobrou os sentidos. Sempre fora alérgica a produtos com amoníaco. Olhou à volta: nem princípe, nem lagarto. Só a casa toda por limpar e aquele horrível sabor do amoníaco na boca: frio e viscoso.

***************

Jurara a ele mesmo que nunca mais lhe voltava a bater à porta. Não queria dar parte de fraco. Mas, afinal, ali estava de novo: Trim... Quem é? Sou eu. Olha, esqueci-me das minhas chaves aí, cofff, cofff, olha, vá lá, abre-me a porta depressa que estou cheio de tosse e está um frio de rachar aqui na rua.
Sentiu o cliq da porta do prédio a abrir-se e pensou naquele raio de mentira que tinha inventado só para voltar a vê-la. E se ela lhe fechasse a porta na cara? Amedrontado e supersticioso, bateu duas vezes na madeira da porta – lagarto, lagarto. Mais calmo, entrou finalmente.

Publicado por vmar em 05:01 PM | Comentários (6) | TrackBack

maio 02, 2004

As “Marionetes” e Gabriel G. Marquez

A 16 de Outubro passado, publicou-se um texto atribuído a Gabriel Garcia Marquez.
Pelas dúvidas quanto à autoria, e na impossibilidade de confirmar a veracidade do mesmo, pedi ajuda à comunidade. Um contributo importante chegou agora da Cecília que nos enviou este texto que aqui reproduzimos.
O texto polémico pode ser lido e escutado aqui. De qualquer maneira reafirmo que continuo a gostar desta apresentação. Acho-a bem conseguida independentemente do texto original não pertencer a G. G. Marquez. Só é pena as confusões à volta do nome (inclusive da vida e saúde) do grande escritor.

Segue opinião de Betty Vidigal publicada em jornal da UBE

Vivir para negarlo
Betty Vidigal

Onde se reitera a não-autoria de Marionetes por Gabriel Garcia Marquez, revela-se quem é o autor desse texto e procura-se desvendar as razões da confusão.

Qualquer pessoa que tenha intimidade com literatura percebe, ao primeiro relance, que Gabriel Garcia Marquez não escreveria algo como Marionetes.
E, hoje, até mesmo quem achou o “poema” lindo e o divulgou como sendo de autoria do Nobel de 1982 já reconhece que ele não o escreveu: afinal, ele mesmo negou publicamente ter escrito um texto “tán malo”. (Usei aspas em “poema” porque o texto não pode, em nenhuma hipótese, ser considerado um poema: trata-se de prosa. No entanto, percorreu a net como sendo o “poema de despedida de Gabriel Garcia Marquez”.) Que razões teria Gabo para se “despedir”?

Em 24 de junho de 1999, ele se internara em uma clínica de Bogotá, queixando-se de intenso cansaço. Em 13 de setembro, recebeu de médicos de Los Angeles o diagnóstico de um câncer linfático. O tratamento começou imediatamente e poucas semanas depois anunciava-se que a saúde do autor de Cem Anos de Solidão havia melhorado. No entanto, em 29 de maio de 2000, o jornal peruano La Republica publicou La Marioneta como sendo “um poema de despedida que Garcia Marquez enviou a seus amigos mais próximos, devido ao agravamento de sua doença.” (Será que não sabiam que esse texto já corria a internet desde julho de 1999, em sites de auto-ajuda, como se fosse “uma colaboração de Garcia Marquez a um programa de menores maltratados”? E que, já nesse tempo, apontava-se a incongruência com o estilo elegante do escritor colombiano?)
Em 30 de maio, todos os jornais do México reproduziam a notícia do La Republica. O La Crónica dizia, em manchete: “Gabriel Garcia Marquez canta uma canção para a vida”. Era um poema sentimental, cheio de lugares-comuns. Ei-lo, na íntegra, em tradução:
Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de pano e me desse um pedaço de vida, talvez eu não dissesse tudo que penso, mas com certeza pensaria tudo que digo. / Daria valor às coisas não pelo que custam, mas pelo que significam. / Dormiria pouco e sonharia mais, por que para cada minuto em que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. / Andaria quando os outros param, despertaria quando os outros dormem, ouviria quando os outros falam, e como aproveitaria um sorvete de chocolate...! / Se Deus me desse um pedaço de vida, eu me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços sob o sol, deixando a descoberto não somente meu corpo, mas minha alma. / Meu Deus, se eu tivesse um coração... escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que saísse o sol. / Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. / Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir o perfume de seus espinhos e o beijo encarnado de suas pétalas... / Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas que amo que as amo. / Convenceria cada mulher de que ela é a minha favorita e viveria apaixonado pelo amor. / Aos homens eu provaria quão equivocados estão em pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. / A um menino eu daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinho. / Aos velhos, os meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. // Tantas coisas aprendi com vocês, homens...! / Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está em se escalar a encosta. / Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo do pai, ele o tem preso a si para sempre. / Aprendi que um homem só tem direito de olhar de cima a outro homem quando for ajudá-lo a levantar-se. // São tantas as coisas que aprendi de você! s. Mas não terão muita serventia, porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente, estarei morrendo...”
Os negritos acima são meus. Assinalei estes trechos porque, quando se sabe quem escreveu o texto e com que finalidade, eles passam a fazer sentido, dentro desse vademecum. O original está, claro, em espanhol . Há muitas traduções para o português, com pequenas diferenças entre elas. O texto é encontrado na internet em todas as línguas (prémios Nobel têm prestígio em toda parte).
Inicialmente, o autor de Cem anos de Solidão – que desde 1975 vive no México, em um casarão antigo restaurado por ele mesmo, mas estava em Los Angeles naquele momento – não se deu ao trabalho de negar a autoria. Disse a amigos que o texto era tão ruim (ainda que possa parecer admirável para algumas pessoas) que não valia a pena perder tempo com isso. Naquela mesma semana outro texto, este de fato escrito por ele, sobre o náufrago cubano Elian Gonzáles, foi publicado em vários jornais com o título Shipwreck on Dry Land .
Em 31 de maio, porém, ao ver como se espalhava a crença de que ele de fato escrevera La Marioneta e estaria à beira da morte, Garcia Marquez declarou: “Lo que realmente me puede matar es la vergüenza de que alguién me crea capaz de haber escrito un texto tan cursi , tán malo”, afirmação que foi reproduzida pelos meios de comunicação de todo o mundo. Quando leu o comentário de Marquez de que jamais escreveria algo tão ruim, o verdadeiro autor, o ventríloquo Johnny Welch, veio a público declarando-se magoado: “A mí me duele profundamente que el señor Garcia Marquez diga que él no se atrevería a escribir una cosa tan cursi, pero respeto su opinión. Yo no soy un letrado o una persona que haya estudiado Filosofía y Letras, soy un ser humano con la necesidad de comunicar lo que siente y lo hago con el corazón", disse ao jornal mexicano Reforma em 1º de junho de 2000. (Observem: toda vez que alguém diz algo como “apenas escrevo, com muita sinceridade, tudo que me vai n’alma”, trata-se de péssima literatura. Grandes escritores não escrevem “o que sentem”. Fernando Pessoa nos conta: “Dizem que finjo ou minto/ tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação. Não uso o coração.” ) Johnny Welch escreveu Marionetes para ser declamado, em shows, por seu títere Mofles. Quando se sabe disso, tudo se encaixa. Afinal, nenhum ser humano do sexo masculino teria motivos para dizer “aprendi tanto com vocês, homens...”. Já um boneco pode perfeitamente dizer isso. E, quando declara que vai ser guardado dentro de uma maleta – ora, onde mais você guardaria um boneco, se fosse ventríloquo? Claro que leitores inclinados a acreditar que se tratava de um poema-testamento interpretaram a “maleta” como um esquife.
Welch vive no México, onde tem certa fama. Isso de fama é coisa muito variável, localizada e regional. Enquanto o site americano Museum of Hoaxes se refere a “the obscure Mexican ventriloquist named Johnny Welch”, outro site, desta vez mexicano, intitulado “Famosos”, diz que “actualmente o ventríloquo Internacional Johnny Welch está em incursão pelo mundo da literatura promovendo suas duas obras mais recentes”. As obras em questão são dois livros, Lo que Me ha Enseñado la Vida e Hilos de Vida (suponho que os “fios de vida” sejam os que controlam os movimentos das marionetes...).
O texto aqui focalizado está no primeiro destes livros e tem o título de Si yo tuviera vida . A frase “Lo dice uma marioneta de trapo:” introduz o monólogo acima, chamado de “poema” por quem o divulgou.
Ainda em 1º de junho – três dias depois de ter divulgado a falsa notícia inicial – La Republica publicou a seguinte nota: “Quem não merece a brincadeira de que foi vítima é Gabriel Garcia Marquez. O texto que apareceu neste diário na última segunda-feira, na coluna de Mirko Lauer, é apócrifo. Garcia Marquez tem seu câncer sob controle e nada previsível ameaça sua vida. Isto está confirmado. O texto publicado na segunda-feira foi enviado a Lauer pelo escritor Abel Posse, embaixador da Argentina no Peru, que o recebeu de amigos. Muitas vezes, insidiosamente, meteram-se com a vida de Garcia Marquez. Agora querem meter-se com sua morte.”
Destrinçando-se a confusão, soube-se que Abel Posse recebeu o texto por e-mail da escritora Elizabeth Burgos, radicada em Paris. Ela, por sua vez, recebeu-o de Rosário Sousa, a quem não conhece. O e-mail tinha partido da Bélgica. Rosário Sousa, ao receber o “poema”, enviado por Donato di Santo, da Itália, enviou-o a 17 pessoas, entre as quais estava o presidente do Chile, Ricardo Lagos. Antes de La Republica desmentir o que publicara, o jornal mexicano La Jornada tinha procurado confirmar a autoria de Marionetes. A secretária de Garcia Marquez respondeu apenas: “El señor no escribe poemas.”
A nota de correcção no La Republica chegou tarde. Jornais do mundo inteiro já tinham reproduzido La Marioneta, com a informação de que se tratava de um “poema de despedida” de Garcia Marquez . Como recolher todas as penas? Embora esteja até mesmo em alguns sites de humor (acompanhado da advertência de que “nem tudo na vida é piada, leia esta reflexão do grande escritor colombiano, etc...”), a distribuição via e-mail é que foi responsável pela ampla divulgação do texto. Em geral, em forma de arquivos Power Point, com as inevitáveis ilustrações de flores, corações e quejandos, sempre explicando tratar-se de uma despedida “emocionada” enviada por Gabo a seus amigos mais próximos, por estar às portas de morte.
São evidentes as semelhanças entre este texto e aquele outro que foi apocrifamente atribuído a Borges, Instantes (o primeiro apócrifo a ser focalizado nesta série de artigos). Ambos falam em escalar montanhas e tomar sorvete, em dormir mais tarde ou dormir menos e, genericamente, falam no que se faria e não se fez durante a vida. Ambos, provavelmente, agradam ao mesmo tipo de leitor. Segundo o site http://www.artistasmexicanos.com, Johnny Welch é licenciado em Direito, com especialização em Criminologia e criador de mais de vinte personagens. Este site diz que Don Mofles é um personagem “engraçado, de grande frescor e originalidade”. Mas, segundo o site peruano Vivências Literárias , é “um boneco que representa um velho malicioso que faz piadas pesadas”. O mesmo site Artistas Mexicanos diz: “considerado nos Estados Unidos como um dos ventríloquos mais importantes de fala hispânica, Johnny Welch recebeu em Cincinati o Distant Voice Award, prémio mundial outorgado à sua habilidade e originalidade”. Depois que todo esse imbróglio se desenrolou, Joaquim Lopez Doriga, o principal âncora da Televisa, do México, reuniu Garcia Marquez e Johnny Welch, acompanhado do boneco Mofles. Depois de passar o vídeo em que Gabo diz que não escreveria nada tão ruim, Doriga mostra o escritor dizendo a Johnny Welch que o poema é muito bonito, mas muito diferente de seu estilo. Posts em grupos de discussão dizem que Garcia Marquez temia um processo por parte do ventríloquo, que alega ter vendido 20 mil exemplares do livro. Acredito que, pelo contrário, uma natural delicadeza de sentimentos o tenha levado a ser complacente.
O jornal Reforma de 7 de junho de 2001 relata que “Gabriel Garcia Marquez visitou na terça-feira o ventríloquo Johnny Welch em sua casa em Lomas de Virreyes por aproximadamente uma hora, desculpou-se pelo que disse do poema e se deixou fotografar com o Mofles” .
Outro texto apócrifo circula na rede, atribuído a Gabriel Garcia Marquez. Trata-se de uma “Carta a Bush”, sobre o atentado de 11 de setembro de 2001, nos EUA. O jornal equatoriano El Comercio diz, em 21 de fevereiro de 2003, que a agente do escritor, Carmen Balcells, que vive em Barcelona, na Espanha, e é responsável pela publicação de sua obra, nega enfaticamente que ele tenha escrito essa carta e ressalta que tudo que ele escreve passa por ela e nada é divulgado sem que ela leia antes – muito menos pela internet .
Encerremos este artigo com uma declaração de Gabriel Garcia Marquez, sim, autêntica: "Comecei a escrever por acaso, talvez somente para mostrar a um amigo que minha geração era capaz de produzir escritores. Depois caí na armadilha de continuar a escrever, por gosto. Aos doze anos estive a ponto de ser atropelado por uma bicicleta. Um cura que passava me salvou com um grito: “Cuidado!” O ciclista caiu por terra. O cura, sem parar, me disse: “Viu o poder da palavra?” Nesse dia eu soube.”


Nota: os negrito de que fala a Betty perderam-se na transcrição para o mail, presumo eu.

Publicado por vmar em 08:17 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 29, 2004

Pranto de uma gaja heterossexual

O homem perfeito

O homem perfeito é lindo
tem um pouco de mistério
é belo quando está rindo
é belo quando está sério

O homem perfeito é bom
tem um jeito carinhoso
quando fala, em meigo tom
causa arrepio gostoso

O homem perfeito é fino
é solícito, é fiel
tem a graça de um menino
e é mais doce que o mel

O homem perfeito adora
dar flores, botões de rosa,
a uma velha senhora
Ou uma jovem formosa

O homem perfeito tem
energia, não se cansa,
lava louça, cozinha bem,
gosta muito de criança

O homem perfeito é
sensível à grande arte
gosta de dança e ballet
Nunca haverá de magoar-te

Para encerrar a preceito
estes versos que alinhei:
se existe um homem perfeito,
o filho da puta é gay.

Publicado por vmar em 05:22 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 28, 2004

Livros que o salazarismo censurou

O editor e alfarrabista Paulo Ferreira lançou um catálogo de livros antigos comemorativo do 30º aniversário do 25 de Abril, onde se podem encontrar algumas das mais significativas obras censuradas pelo antigo regime nas décadas que antecederam a revolução, a par de livros, sobretudo de ficção e poesia, que marcaram os primeiros anos da democracia.
O catálogo, inclui cerca de 200 volumes, entre os quais se conta um conjunto muito significativo de primeiras edições de romances, novelas e livros de contos neo- realistas, incluindo as duas obras tidas como fundadoras da ficção neo-realista portuguesa: "Gaibéus", de Alves Redol, e "Esteiros", de Soeiro Pereira Gomes, respectivamente publicados em 1939 e 1941.
Entre os autores mais representados no catálogo contam-se ainda Augusto Abelaira (as primeiras edições de "Bolor" e "Sem Tecto Entre Ruínas" a 15 euros cada são uma oportunidade a aproveitar), Natália Correia, Álvaro Cunhal, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Vergílio Ferreira ou Miguel Torga. Entre várias outras raridades, destaque para "Terra do Pecado", o primeiro romance de José Saramago, editado pela Minerva em 1947.

Publicado por vmar em 02:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 07, 2004

Mãe!

Maternidade – Almada Negreiros


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traz tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! Verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros

Publicado por vmar em 11:42 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 03, 2004

Pense pela sua própria cabeça

Se há algo com que concorde, são estas palavras de Agostinho da Silva.
Deveria ser tarefa fundamental de todos os pais e de todos os professores ensinar a juventude a pensar pela sua própria cabeça.

Meu caro amigo:

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.

Agostinho da Silva

Publicado por vmar em 04:48 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 21, 2004

Por dentro da chuva


Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por
dentro...

in Chuva Oblíqua
Fernando Pessoa

Publicado por vmar em 11:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 17, 2004

Fonte(s) de sabedoria e conhecimento

Há blogs assim, são para mim uma fonte de sabedoria e conhecimento. Por isso gosto de os ler. Estou a referir-me ao Memória Virtual. Especificamente, estou a pensar nos interessantes textos que o Leonel Vicente anda a publicar, "A Arte de Ter Sempre Razão" - Schopenhauer

Mas não se esgota no Leonel Vicente o conjunto de blogs que pessoalmente classifico como fontes de sabedoria e conhecimento.
Para já cito três:
Silêncio
Citador
História e Ciência

Publicado por vmar em 10:01 PM | Comentários (5) | TrackBack

março 16, 2004

Cosmocópula

I
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.

II
O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta

dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro


Natália Correia

Publicado por vmar em 05:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 04, 2004

Blogs: crescei e multiplicai-vos!

Crise na blogosfera?
Na Weblog batem-se records de visitas.
Cada vez há mais blogs. Cada vez há mais gente com um blog. Pessoais, em grupo, sérios, divertidos, gerais, regionais, políticos, literários, sobre ciência, história, educação, saúde, provérbios, culinária, surf, sexo...
Cada vez há mais gente a ler e comentar blogs. Cada vez mais os blogs fazem parte das leituras e conversas quotidianas das pessoas.
E se uns vão ficando pelo caminho, logo outros aparecem. Por vezes do mesmo autor, em versão renovada, passado um período de hibernação.
Até parece que Deus, a acompanhar o espírito dos tempos, resolveu acrescentar ao Génesis um novo versículo ciber-modernista: «Blogs: Crescei e multiplicai-vos!»

Há quem diga que isto dos blogs vai ser uma moda e, como todas as modas, passageira. Talvez não. Cá por mim, aposto que os blogs vieram para ficar. Talvez com altos e baixos mas para ficar. Porque, no meu pessoalíssimo entender, os blogs são qualquer coisa mais que um mero passatempo interessante, ainda que “exigente” em termos de tempo.
São formas livres de expressão (cada um põe lá o que bem entende), acessíveis ao cidadão comum que tenha interesse e gosto em fazê-lo.
Um blog dá voz a pessoas que, de outra forma, teriam muita dificuldade em fazer-se ouvir para além do grupo restrito dos três ou quatro amigos com quem vão almoçar à tasca.
Ao darem voz ao cidadão anónimo, ao permitirem-lhe pronunciar-se - louvando, protestando, reflectindo -, sobre o que vai acontecendo na sociedade e no mundo, os blogs jogam a favor da democracia e da liberdade.
Num outro plano, mais pessoal, até podem contribuir para que algumas pessoas, servindo-se do anonimato, desabafem e partilhem problemas, traumas, fantasmas diversos que, de outra maneira, não o fariam.
Claro que isto do anonimato é sempre um “pau de dois bicos”, podendo ser um meio libertador para algumas pessoas, para outras pode ser utilizado, de uma forma baixa, como meio de ataque pessoal. Mas isso é como tudo na vida, depende das pessoas e da utilização que cada um lhe dá.

Mas um blog não se limita a ser um meio de expressão individual. É também um eficiente meio de comunicação, partilhado por todos aqueles que o lêem, por vezes gente geograficamente muito distante.
O sistema de comentários permite o retorno, a ressonância dos diversos posts, por vezes o diálogo e o confronto com opiniões diversas.
Pessoalmente, acho tanta ou mais piada aos comentários, nos diversos blogs, que ao resto. É o que me dá a sensação de conversa.
A Net é um mar de coisas a pesquisar e a aprender e os blogs são ilhas onde se pode descobrir coisas muito imprevistas e interessantes.

E depois disto, não posso deixar em branco o nome de Paulo Querido. A Weblog está bem organizada – agora ainda melhor com a remodelação. É personalizada: O facto de termos um senhorio atento e actuante, pronto a resolver os diversos problemas individuais, quanto a mim é uma mais-valia relativamente a outros alojamentos.

Publicado por vmar em 06:11 PM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 12, 2004

Hoje fiz as pazes com Kant

Naquele tempo, que foi o meu, em que Portugal tinha como Chefe-de-Estado um senhor conhecido como o «Cabeça de Abóbora», Américo Tomás de nome próprio, e a escola secundária, sempre que possível dividida em rapazes para um lado e raparigas para o outro, que se chamava Liceu, os manuais escolares eram abusivamente feios e malfeitos, cheios de matérias desgarradas e mal explicadas.

Os professores, pelo menos os que me calharam em sorte, da primária à faculdade – na faculdade já houve alguma mudança pois vivia-se o período “pós” 25 de Abril, mas isso seria tema para outro post – eram umas criaturas distantes e autoritárias, com ar de quem estava ali a fazer um grande frete, que passavam aulas e aulas dos diversos anos lectivos a debitar o que vinha nos manuais, discursos que tínhamos de decorar e igualmente debitar nos testes e exames se queríamos ter notas razoáveis e passar o ano.
Mesmo quando não compreendíamos nada daquilo, o que acontecia com frequência, numas disciplinas mais que outras, consoante a “queda” do aluno ser para letras ou ciências.

No meu caso pendia para ciências. E então, quando cheguei á filosofia (tirando a Lógica que gostei e até tive umas honestas brilhantes notas), nem me dei ao trabalho de tentar compreender o pensamento daqueles filósofos. Para quê? Pois se decorasse ou copiasse o resultado era o mesmo...
Quando cheguei ao Kant e á Crítica da Razão Pura (só o nome metia respeito), cujo pensamento o manual do Bonifácio – mais conhecido pelos alunos como o manual do Malifácio - resumia em meia dúzia de parágrafos com um conteúdo ainda mais “de outro planeta” que os restantes, fiz como habitual: ou seja, decorei, pespeguei nos testes e pontos de exame, esqueci e passei à frente, que eu era jovem e a vida - a verdadeira, achava eu, feita de coisas concretas e tangíveis - estava à minha espera para ser vivida.
E assim até fiquei com tempo livre para jogar uns matraquilhos com os amigos, atirar às miúdas uns inevitáveis olhos inundados das hormonas tresloucadas da idade, fazer teatro, passar umas tardes nos cafés em animado paleio e ir ao Paris ou Jardim Cinema, onde, por quatro ou cinco escudos, se viam dois filmes seguidos (às vezes até um teatro curto antes do filme e nos intervalos, feito pela maralha nova, que gostava de atirar bocas uns aos outros) em sessões de reprise.

Hoje estive a ler o post do morfeu sobre o Kant. Interessante, de facto. O homem, afinal, não era assim tão esquisito como o pintavam naqueles velhos tempos. Talvez porque, como escreve Helena Ferro de Gouveia, Kant, que morreu faz hoje duzentos anos, foi um grande filósofo defensor dos direitos humanos, da igualdade perante a lei, da cidadania mundial, da paz universal e acima de tudo do "Sapere Aude", a emancipação da razão. E naqueles velhos tempos, cá por Portugal, essas eram coisas que não interessavam ensinar ao povo.
Quase três décadas depois, fiz as pazes com o filósofo. Combinei com ele irmos beber um cafezinho juntos... , para o Immanuel (Kant) me contar aquelas coisas que pensava sobre os homens e a vida. Aposto que vou gostar de o ouvir...

Kant:
Um pensador genial com um quotidiano monótono? As novas obras biográficas mostram um outro filósofo que jogava com gosto às cartas, que apreciava uma boa refeição ou um espectáculo de teatro, que gostava de anedotas - claro que por motivo racional: o riso estimula a digestão - que se interessava pela política mundial. Naturalmente que não foram apenas os aspectos privados de Kant que mereceram a atenção dos autores (todos reconhecidos especialistas no obra do filósofo da Aufklaerung), mas a sua vida intelectual, as suas ideias e como estas foram influenciadas pelo clima da época.

Publicado por vmar em 05:47 PM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 12, 2004

A perda da inocência pelo efeito Smirnoff

Não resisti a reeditar este post com o comentário que este mereceu por parte da amendoamarga.


A perda da inocência

A mãe flor bem se fartou de avisar a filha florinha: Tem cuidado, tu és pura, inocente, na beleza frágil das tuas pétalas acolhes as abelhinhas, o teu pólen é dádiva generosa com que fabricam o precioso mel. Ele não, a natureza dele é outra. É áspero, violento, atordoante, viciante. Não passa de um frasco, minha filha, guarda-te.

Mas era exactamente o desconhecido dessa diferente natureza que a atraía, em imaginados sonhos em todas as insónias renovados.

Num momento de nefasta conjunção dos elementos atmosféricos, um vento de sereia trouxe-lhe o etílico aroma. Sem conseguir resistir ao apelo das linhas daquele corpo, tão geométricas e fortes, a frágil e bela florzinha, num estremecimento de todos as suas raízes, de todos os seus ramos, mergulhou nele uma corola trémula.

A princípio estranhou o sabor áspero, como diria o senhor que a regava, enquanto bebia Smirnoff, e que, por acaso, se chamava Fernando. Mas logo, sequiosa, o bebeu.

E o bebeu com tanto ardor que ele se entranhou nela. E ela nunca mais foi a mesma.

E agora, para desilusão amarga da mãe flor e espanto do senhor Fernando, a flor já não oferece apenas o seu pólen ás abelhas. Agora come as abelhas.

Publicado por vmar em 03:50 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 19, 2003

São palavras de Gabriel Garcia Marques ou não?

A 16 de Outubro publiquei aqui um texto sobre uma carta escrita por Gabriel Garcia Marques numa fase adiantada da sua doença. De comentários recebidos ponho agora em dúvida a sua autoria. No entanto, não consegui confirmar os dados apresentados. Alguém aqui na blogosfera ajuda a esclarecer e a confirmar a verdade, ou seja, a autoria ou não do texto atribuido a G. G. Marques?

Todos os comentários elogiam fortemente o texto, mas são estes dois, que se seguem, que duvidam da veracidade da sua autoria.

O comentário da Evellin diz:
Também achei a carta linda, mas ñ é dele."Gabriel García Márquez nasceu em 1928 na pequena cidade de Aracataca, na Colômbia. Cresceu ao lado de seu avô materno, um coronel da guerra civil no princípio do século. Estudou num colégio jesuíta e posteriormente iniciou o curso de Direito, logo abandonado em virtude de seu trabalho como jornalista. Em 1954 foi para Roma, como correspondente do jornal onde escrevia, e desde então tem vivido em cidades como Paris, New York, Barcelona e México, em um exílio mais ou menos compulsório. Apesar de seu talento como ficcionista e premiado escritor, continua exercendo a profissão de jornalista.No dia 21 de outubro de 1982 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, quinze anos depois de ter escrito "Cem Anos de Solidão", seu maior sucesso, traduzido em 35 idiomas e com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.Em nossos dias circula pela Internet um texto cuja autoria foi atribuída a García Márquez, um tipo de "carta de despedida", pois estaria o autor prestes a falecer em virtude de um câncer linfático. Segundo a "Crônica do falso adeus" de Orlando Maretti, "Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os amigos, ... não apenas negou, pela imprensa, que estivesse em estado terminal como também espinafrou a pieguice do texto e seu autor, identificando-o como um subliterato latino-americano. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, o escritor colombiano lamenta a repercussão do texto."Orlando Maretti acrescenta: "...a primeira pista para duvidar da autoria é a insistência na citação vocativa de Deus. Pelo que se sabe, García Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe seu perfil lembra um religioso."

O comentário de maq diz:
GGM é o meu escritor preferido, pelo lirismo comovente de sua prosa e principalmente pela crueza das realidades que informa, que estão em sintonia com o nosso cotidiano de dores e de sentimentos, em que pese o aspecto diferencial histórico e costumeiro de sua pátria e de sua gente. Li a carta que lhe é atribuída. Seu teor, forma e conteúdo revelam um texto mais para o estilo do argentino Luis Borges. De certa modo até parafraseia o conteúdo do poema "Instantes". GGG é único na sua escrita. O que dele conheço me faz duvidar de que seja de sua autoria esta "carta". A menos que o tradutor a tenha refeito, o que não acredito. Concordo com a Evelyn.

Assim, fico a aguardar os ecos do mundo blog.

Publicado por vmar em 04:00 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 18, 2003

Festa do Livro abre quinta-feira na FIL para vender livros "ao preço da chuva"

A sexta edição da Festa do Livro vai abrir quinta-feira ao público, na Feira das Indústrias de Lisboa (FIL), com cerca de 350 mil livros, parte deles para vender "ao preço da chuva", anunciou hoje a organização.
A Festa do Livro, com entrada livre, será inaugurada quinta-feira pelas 18h00, e vai estar aberta ao público entre as 18h00 e as 24h00, nos dias de semana, e entre as 10h00 e as 24h00, aos fins-de-semana.

Vale a pena dar lá um pulinho?
Certamente!

Publicado por vmar em 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 06, 2003

A função e o órgão (Natália Correia)

A deputada Natália Correia, escreveu e distribuiu no hemiciclo o poema que abaixo se transcreve, dedicado pela autora ao seu colega João Morgado. Este parlamentar do CDS afirmara, numa intervenção sobre a questão do aborto, que o acto sexual só é justificável tendo o objectivo a procriação.

Dedicado ao deputado João Morgado

Já que o coito - diz o Morgado
Tem como fim cristalino
Preciso e imaculado
Fazer menina e menino,
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca
Temos na procriação
Prova que houve truca-truca.
Sendo pai de um só rebento
Lógica é a conclusão
De que o viril instrumento
Só usou - parca ração! -
Uma vez. E se a função
Faz o órgão - diz o ditado -
Consumada essa operação
Ficou capado o Morgado.

(Natália Correia)

Publicado por vmar em 09:03 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 01, 2003

O inimigo sem rosto: fraude e corrupção em Portugal

O livro de Maria José Morgado, Procuradora Geral-Adjunta, e do jornalista free-lancer José Vegar

Para alguns especialistas do tema, como os investigadores europeus Yves Mény e Donatella Della Porta, a corrupção tornou-se, a partir do fim dos anos 80, o principal problema das democracias ocidentais. Baseando-se no estudo de casos ocorridos em Itália, França, Espanha, Alemanha e Inglaterra, Mény e Della Porta defendem que «os fenómenos de corrupção que se desenvolveram no decurso do último decénio e, mais ainda, a sensibilidade crescente da opinião pública para esta questão, constituem uma das expressões mais agudas desta crise» (a dos sistemas políticos ocidentais) e são da opinião de que o fenómeno passou já de «endémico» a «uma espécie de metassistema tão eficiente ou ainda mais do que os aparelhos oficiais nos quais está enxertado e dos quais se alimenta».

Por outro lado, uma sondagem conjunta do diário Público e da Universidade Católica, publicado em Julho de 2003, aponta que a corrupção é a segunda maior preocupação dos portugueses, a seguir ao desemprego, segundo 49 por cento dos inquiridos.

Um livro importante a falar de um tema que todos afirmam ser importante mas que alguns tentam fazer passar a ideia de ser um mal necessário e impossível de acabar.
Aliás o povo alimenta e convive com o lema “ sempre existiu e sempre há de existir”.
Combates sem grande convicção não têm êxito possível.

Publicado por vmar em 12:29 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 29, 2003

A importância da pontuação

Um homem rico estava muito mal. Pediu papel e pena. Escreveu assim:
Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres

Morreu antes de pontuar a frase. A quem deixava ele a fortuna?

Eram quatro concorrentes:

1) O sobrinho fez a seguinte pontuação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

3) O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

4) Aí, chegaram os pobres da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres.

Assim é a vida. Somos nós que colocamos os pontos.
E isso faz a diferença!

Publicado por vmar em 05:53 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 28, 2003

Sophia de Mello Breyner distinguida com Prémio Rainha Sofia

A poetisa Sophia de Mello Breyner vai ser distinguida esta terça-feira com o Prémio de Poesia Rainha Sofia, «pelo seu valor literário, que constitui um contributo válido para a humanidade».

Parabéns, Sophia

Publicado por vmar em 09:53 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 24, 2003

Cartoonista José Bandeira premiado

O álbum «Namoros, Casamentos e Outros Desencontros», do cartoonista português José Bandeira, foi distinguido com o Prémio de Melhor Álbum de Tiras Humorísticas 2003 do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.

Parabéns, José Bandeira


P.S. - hoje já vai em quatro, as mensagens de felicitações.

Publicado por vmar em 08:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sofia Branco recebeu hoje o Prémio Natali

A jornalista do PUBLICO.PT Sofia Branco recebeu hoje o Prémio Natali da Federação Internacional de Jornalistas e da Comissão Europeia, pela reportagem "Mutilação Genital Feminina - o holocausto silencioso das mulheres a quem continuam a retirar o clítoris". A distinção premeia trabalhos jornalísticos na área dos direitos humanos e do desenvolvimento.

Sobre o trabalho, a jornalista do PUBLICO.PT explica como tentou "compreender o acto odioso" da mutilação genital feminina para, através da compreensão, "mudar o mundo para melhor".

O trabalho, publicado em 2002 no PÚBLICO e no PUBLICO.PT, já foi distinguido com o Prémio Mulher Reportagem Maria Lamas 2002; com o Grande Prémio Imigração e Minorias Étnicas: jornalismo pela tolerância do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME); e obteve uma menção honrosa no Prémio AMI - Jornalismo Contra a Indiferença.

Parabéns, Sofia Branco

Hoje é a 3ª vez, aqui, neste blog, que dou os parabéns a alguém, mas estou feliz por o fazer e espero que o possa repetir muitas vezes.

Publicado por vmar em 08:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

Prémio União Latina atribuído a António Lobo Antunes

O escritor António Lobo Antunes foi distinguido esta sexta-feira, em Paris, com o Prémio internacional União Latina de literatura. Este prémio, cujo valor ronda os 12 mil euros, pretende distinguir a totalidade da obra do escritor.
A qualidade da literatura nacional, é mais uma vez, reconhecida internacionalmente.

Parabéns para o Lobo Antunes.

Publicado por vmar em 04:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 23, 2003

Portugal país perplexo, prostrado, pestilento.....

Exercícios geniais que demonstram domínio fácil da escrita.
Impõem-se a sua leitura nestes links:

Passaram pela pantalha Portistas primorosos!
Da autoria do Rui no adufe.pt

EXERCÍCIO EXTREMAMENTE ELABORADO...
Da autoria do Luis Ene no Ene Coisas

Publicado por vmar em 11:08 AM | Comentários (0) | TrackBack

Vargas Llosa questiona o futuro da literatura

Mário Vargas Llosa Admite Que a Literatura Se Torne Marginal no Futuro

Uma sociedade impregnada só de imagens seria mais pobre
. Mas o cenário não é impossível no futuro. Defender a literatura é, por isso, uma tarefa das famílias e das escolas, defendeu Mário Vargas Llosa no lançamento, ontem, em Lisboa, do seu último livro, "O Paraíso na Outra Esquina", edição conjunta da Dom Quixote e do Círculo de Leitores.
O escritor peruano - cujo nome figurou entre os mais apontados como candidatos sérios ao Prémio Nobel da Literatura deste ano - não descarta a possibilidade de a literatura "se converter nalguma coisa de marginal, relegada cada vez mais como actividade minoritária, e desenvolvida em catacumbas". Se assim acontecer, "haverá um grande empobrecimento da Humanidade", preveniu. "E será por nossa causa, porque a literatura deve fazer parte da vida das famílias e dos programas de ensino a todos os níveis".
Vargas Llosa confessou não saber responder à pergunta de uma jornalista que quis saber qual o papel da literatura num século em que se assiste ao triunfo do "best-seller" rápido e de um tipo de escrita "light". Mesmo aceitando a sua função de entretenimento, avisou que a literatura não pode ser só divertimento. "Se o fosse, seria ultrapassada por outras formas mais eficazes. Não pode competir com a televisão e o cinema", disse. "A riqueza não são as imagens. São ideias materializadas em palavras que se dizem nos livros".
O livro de literatura, prosseguiu o escritor, é imprescindível para ensinar a falar as pessoas. "O vocabulário, os matizes, as subtilezas dão-os a boa literatura, que é aquela que mantém um alto nível de criatividade, daquilo que é diferente, do que não temos e com que sonhamos". Uma das superioridades da literatura, concluiu, é a "vocação crítica, que os audiovisuais não têm ou têm domesticada".
O escritor adverte que não se pode renunciar à utopia. "É um motor que empurra o desenvolvimento: os grandes cientistas, os exploradores, os santos representam de algum modo a materialização desse sonho utópico". Faz, contudo, uma distinção entre a utopia política e a utopia individual. "As utopias políticas trouxeram mais prejuízos do que benefícios à Humanidade. A felicidade nunca se pode encontrar num projecto colectivo".

Publicado por vmar em 10:35 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 16, 2003

Gabriel Garcia Marquez, talvez o último escrito

Gabriel Garcia Marquez está muito doente.
Enviou aos amigos uma carta que aqui se reproduz.
Espectacular.

Publicado por vmar em 09:17 AM | Comentários (10) | TrackBack